A Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) promoveu, nesta terça-feira, a Mesa 2 do 27º Seminário de Pesquisa e Extensão (P&E), dedicada ao tema “Comunicação Científica: como furar a bolha e enfrentar a desinformação”. Transmitido pela TV UEMG Oficial, o debate integrou a programação do evento, que neste ano aborda “Ciência para todos: o papel da universidade na difusão do conhecimento”.
A mesa foi mediada por Antonio Araujo, Assessor-Chefe de Comunicação da UEMG, e contou com a participação de dois especialistas reconhecidos nacionalmente: Professora Karol Natasha, diretora da Unidade Acadêmica de Frutal e pesquisadora da área de desinformação e pós-verdade, e Professor Francisco Machado Filho (Kiko), diretor da TV Unesp e presidente da Associação Brasileira de Televisão Universitária (ABTU).
Assista a íntegra da Mesa 2 - Comunicação Científica
O desafio de comunicar ciência e “furar a bolha”
Ao abrir o debate, o Professor Kiko destacou o paradoxo da comunicação científica frente ao ambiente digital. Embora nunca tenham existido tantas plataformas para divulgar conhecimento, o alcance efetivo do conteúdo produzido pelas universidades é reduzido devido ao funcionamento dos algoritmos e à lógica de nichos das redes sociais.
Segundo ele, os conteúdos universitários — generalistas e diversificados — não encontram espaço em plataformas personalizadas como YouTube, Instagram e TikTok, dificultando o acesso amplo da sociedade ao conhecimento científico.
“Para furar a bolha digital, precisaríamos de múltiplos canais segmentados, algo que a universidade pública não consegue sustentar. Esse é um problema estrutural”, afirmou.
Kiko defendeu que a solução passa por educação midiática e políticas públicas permanentes que fortaleçam a comunicação pública e universitária. Ele lembrou o risco representado pelo PL 8.889/2017 (Lei do Streaming), em tramitação no Congresso, que elimina a obrigatoriedade de canais universitários nas operadoras de TV via streaming, afetando 66 emissoras ligadas a instituições de ensino superior.
Ciência em disputa e crise de confiança
A Professora Karol Natasha abordou os impactos da desinformação na construção da percepção pública sobre ciência. Ela explicou que as câmaras de eco, reforçadas pelas redes digitais, criam ambientes onde prevalecem conteúdos que confirmam crenças prévias, dificultando o diálogo e ampliando discursos anticiência.
Dados citados pela professora ilustram a mudança nos hábitos de consumo de informação:
- 59% dos links compartilhados não são abertos pelos usuários;
- Dos que são abertos, 81% leem apenas o primeiro parágrafo.
Esse comportamento, afirmou Karol, contribui para uma leitura superficial da realidade, substituindo conhecimento por opinião e enfraquecendo o método científico.
Estratégias e caminhos possíveis
Para enfrentar esse cenário, os especialistas apresentaram propostas, entre elas:
- Produção de conteúdo claro e acessível, sem distorções simplificadoras;
- Articulação com a educação básica e fortalecimento da cultura científica;
- Narrativas e storytelling para aproximar ciência e cotidiano;
- Uso inteligente de recursos visuais e iniciativas colaborativas entre pesquisadores, jornalistas e educadores;
- Políticas institucionais permanentes e financiamento específico.
Karol reforçou que a divulgação científica deve ser compreendida como política pública e como ferramenta para fortalecer a democracia.
TV aberta e rádio como aliados estratégicos
O Professor Kiko destacou que, para alcançar públicos amplos e diversos, a TV aberta permanece o meio mais eficaz.
“Não existe outra força capaz de enfrentar a desinformação em massa. A televisão aberta ainda é o veículo de maior capilaridade e impacto no país”, afirmou.
O rádio também foi apontado como ferramenta relevante, especialmente em cidades do interior, onde cumpre papel essencial de democratização da informação.
Novas métricas e formação universitária
Os participantes discutiram ainda a necessidade de rever currículos e indicadores de impacto para atender às demandas das agências de fomento, que exigem divulgação científica como resultado de pesquisa. Entre as propostas, estão a inclusão de disciplinas obrigatórias sobre divulgação científica e treinamentos específicos para produção multiplataforma.
O debate encerrou com o consenso de que comunicar ciência é um trabalho de longo prazo, coletivo e intersetorial, que exige planejamento, investimento e compromisso institucional.
